Diccionario Histórico-Crítico del Marxismo

un proyecto del Instituto de Teoría Crítica de Berlín

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  • «La hazaña más importante del marxismo, desde el punto de vista intelectual, en el siglo XXI.»

    Gabriel Vargas Lozano
    Universidad Autónoma Metropolitana, Ciudad de México

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Nova publicação

Ciencia Marxista do sujeito

Klaus Holzkamp

Ciência marxista do sujeito
Uma introdução à psiciologia crítica
Tomo I — Os conceitos fundamentais da ciência do sujeito
Ed. Coletivo Veredas — http://www.coletivoveredas.com
ISBN: 978-85-92836-05-4

Prólogo [Morus Markard]
Sobre a seleção dos textos [Morus Markard]
Equipe de tradução e edição em português
Leia CIENCIA MARXISTA DO SUJEITO (PDF —página do Coletivo Veredas)

Prólogo

de Morus Markard [▼2]

 

Com a edição do presente volume, a cargo de Santiago Vollmer, publica-se pela primeira vez em língua portuguesa uma seleção de escritos representativos da obra de Klaus Holzkamp.
Atendendo, a todo o momento, às exigências de compreensão, os textos têm sido traduzidos da maneira mais rigorosa, respondendo assim, notavelmente, ao enorme grau de complexidade que os mesmos oferecem. Neste prólogo, o leitor será brevemente introduzido ao pensamento de Holzkamp, a partir da caracterização, de maneira geral, do autor e sua obra e de comentários sobre os escritos incluídos na edição.

O enfoque da Psicologia Crítica fundado por Holzkamp representa a crítica sistemática a uma psicologia que busca conciliar os indivíduos com a inumanidade das relações capitalistas e que, ao mesmo tempo, deixa de lado a pergunta de como e até que ponto essas relações inumanas são permanentemente reproduzidas. Portanto, a crítica de tal psicologia também vai unida a uma crítica dessas relações inumanas, para as quais, precisamente, uma psicologia desse tipo é funcional. Dessa maneira, a Psicologia Crítica, com seus próprios conceitos, quer tornar clara a necessária relação entre emancipação individual e social e contribuir para a realização dessas emancipações.

É claro que quem “outorga um ferrão ao conceito de crítica” é “o escandaloso nome de Marx” (W. F. Haug, 2006). Klaus Holzkamp era um exitoso professor “burguês” no Instituto de Psicologia da Universidade Livre de Berlim quando, durante a ascensão do movimento estudantil, sentiu a “picada desse ferrão”.
O movimento estudantil era um fenómeno internacional, um de seus pontos de partida havia sido o Berkeley Free Speech Movement que, com uma crítica à guerra do Vietnã, o qual marcara o começo do movimento estudantil estadunidense. O ano 1968 daria seu nome ao movimento: “o 68”. Na Alemanha, o movimento estudantil estava vinculado aos seguintes momentos: uma crise econômica, a crise de um sistema educativo que não lidava com as exigências de desenvolvimento da economia, o escasso e deficiente trabalho com relação ao esclarecimento e memória do fascismo (tanto na sociedade, como na universidade), além de uma fraca democracia nas universidades. Uma das demandas pelas quais lutavam os estudantes se referia ao sistema universitário para que também se fizesse acessível para aquelas camadas da população, às quais, até o momento, a educação universitária estava fechada. Além disso, era essencial (não somente na Alemanha) o questionamento da função da ciência, por exemplo, em relação ao esclarecimento de escandalosas ligações entre a ciência e a técnica com repressão social e exploração internacional (ver, por exemplo, Baritz, 1960).

Aqui, junto à otimização das estratégias de “motivação” para um aumento de produtividade (ver Osterkamp, 1975) era importante para a psicologia a (assim chamada) investigação de contra insurgência (ver Streiffeler, 1975), ou seja: investigação cientifico-social com o objetivo de evitar a erupção de revoltas contra a exploração neocolonial em países do terceiro mundo, sem mudanças fundamentais nas condições, ou em lugar dessas mudanças e onde esse tipo de revolta já não se poderia evitar, com o objetivo de derrubá-las, isolá-las ou canalizá-las.

 

 

Ao lado de Frankfurt, o centro do movimento estudantil na Alemanha era, sobretudo, Berlim; seguramente também pela razão de que, nesta cidade, estavam em contato os sistemas de leste e oeste. O que Klaus Holzkamp tinha a ver com tudo isso?

Desde 1949, como colaborador cientifico no Instituto de Psicologia da Universidade Livre de Berlim, Klaus Holzkamp se dedicou teórica e experimentalmente à “psicologia da expressão” (mímica, gesto, “linguagem corporal”). Foi nesse terreno que, em 1957, ele obteve título de doutor. De 1954 a 1957 participou como colaborador científico de um levantamento sobre preconceitos nacionais alemães, mas também tinha começado a dedicar-se à percepção social, sob outros aspectos. Em 1957, foi nomeado professor titular na disciplina Psicologia Social e mais adiante também deu aulas de Psicologia Pedagógica.

Um conteúdo que àquele momento somente havia acompanhado seus trabalhos, agora se tornava cada vez mais importante para Klaus Holzkamp: o problema das bases teórico-científicas e metodológicas da Psicologia. Dessa fase resultaram suas duas monografias: Wissenschaft als Handlung ([A ciência como ação] 1968) e Theorie und Experiment in der Psychologie ([Teoria e experimento na Psicologia] 1964); esta última escrita no marco de sua admissão no corpo docente como catedrático. Nesses dois trabalhos, tratou o problema da inexistência de critérios claros de apreciação sobre o valor informativo dos resultados obtidos em um experimento. Ressaltou o aspecto ativo no conhecimento científico, criticando a ideia segundo a qual o conhecimento científico ou psicológico seria, sobretudo, resultado de observação e análise das relações causais. Diante disso, buscava entender em qual medida a ação humana e a produção de condições, sob as quais se efetuavam as observações, contribuíam à extração dos conhecimentos científicos.

Um exemplo é a conhecida experiência de Stanley Milgram sobre a “obediência” (em que os participantes deviam aplicar, com intensidade progressiva, eletrochoques de até 450 volts em outras pessoas, como castigo por erros de aprendizagem). Milgram havia conseguido construir a situação em que dois terços dos participantes demonstraram obediência somente após muitos pré-experimentos. Anteriormente, havia desenvolvido desenhos experimentais variados, tanto sob os que ninguém obedecia quanto sob os que todos obedeciam.

Na psicologia foi bem vista a crítica de Holzkamp (e também ele, como seu autor), à medida em que ela parecia culminar num melhoramento da psicologia experimental. Mas ele ainda não havia chegado à conclusão que, em 1981, para a reedição de “Teoria e experimento”, em seu olhar retrospectivo, expressaria da seguinte maneira: as ideias que havia tido em seu tempo eram “um exemplo do que se pode alcançar e do ponto em que se estanca quando, em sua própria visão, o ator científico […] aparece tão somente como um indivíduo isolado, frente a uma realidade até agora intacta, ou seja: quando não se concebe que o conhecimento é um aspecto da apropriação objetiva da natureza por meio do trabalho da sociedade no processo histórico”.

O movimento estudantil o confrontava exatamente com isso, o impressionando, particularmente, um seminário organizado pelos estudantes. Ali, então, Klaus Holzkamp viveu na própria pele, o que só formularia mais tarde: quem se dedica a Marx no plano teórico e não se transforma em um prático, não o terá entendido. O que agora Holzkamp compreendia era o caráter limitado da crítica da psicologia que havia desenvolvido até o momento. E assim, incluiria em seus questionamentos, a função social da investigação científica. O chamado “sujeito experimental” escrevia Holzkamp, fazendo referência a Marx nas Teses sobre Feurbach, é tratado como um “indivíduo humano abstrato, isolado”, (sexta tese) “exposto às condições de um entorno que não produziu ele mesmo, cujo caráter essencial e gestão não são transparentes e aos que aceita como imutáveis e inamovíveis”. Estilizada em uma espécie de “antropologia organicista” esta práxis metodológica era o fundo sobre o qual se constituía uma psicologia, que tão somente podia servir a interesses “técnicos” (Habermas) de dominação. Uma investigação desse tipo permaneceria sempre distante de uma perspectiva “emancipatória”. Dali se derivava, naturalmente, a questão sobre se era possível desenvolver essa perspectiva na psicologia e de que modo seria, questão sobre a qual, nos anos 70, na Universidade Livre de Berlim, assim como em outras universidades, se discutiu com uma intensidade imensa, hoje difícil de imaginar. Estes debates estavam ligados a disputas políticas pela constituição de uma universidade, na qual a relação entre conhecimento e interesse pudesse ser, decididamente, um objeto de investigação e ensino.

Como já mencionamos (em referência às estratégias de motivação, etc.), tratava-se de discutir, sistematicamente, aos quais interesses sociais estavam ligados as investigações e práxis psicológicas. Dentro da faculdade de psicologia, as disputas alcançaram um nível tal que as frações “conservadoras” consideravam poder sustentar-se tão somente através da fundação de um próprio instituto, uma estratégia imposta em 1970. De 1970 até 1995, havia duas faculdades: a original, o “Psychologische Institut” , com Klaus Holzkamp como uma de suas figuras centrais, e o dividido “Institut für Psychologie”. Por trás da reunificação dos dois institutos em 1995, largamente disputada, iniciou-se um período de redução de pessoal, renovação de cátedras nas mãos da psicologia hegemónica e o fechamento de todos os espaços críticos.

Em respeito à atitude de Holzkamp e frente a esta divisão da psicologia na Universidade Livre de Berlim, com a qual se buscava suspender “administrativamente” os debates sobre os conteúdos da disciplina, é destacável a fundação da revista de psicologia social “Zeitschrift für Sozialpsychologie” no mesmo ano de 1970. No editorial do primeiro número, seus editores, Hubert Feger (da metodologia psicológica hegemónica), Carl-Friedrich Graumann (da fenomenologia), Martin Irle (da psicologia social hegemónica) e precisamente Klaus Holzkamp, ressaltavam a necessidade de coerência de uma discussão científica entre os enfoques que eles representavam.

Durante esses anos, o “Psychologische Institut ”, o instituto progressista, vivia uma fase de enorme produtividade teórica, ciência prática fora do isolamento das “torres de marfim”, democratização político-universitária e transparência.

Todos os participantes deste processo (professores, colaboradores científicos, estudantes e colaboradores não-cientistas) podiam ser co-gestores ou contribuir, em grémios democráticos, às decisões, as quais eram preparadas em discussões públicas.

Os estudos se dividiam não somente nas subdisciplinas tradicionais da psicologia, mas também em matérias como, por exemplo, “Função da psicologia”, “Umweltgestaltung” (Acondicionamento ecológico-ambiental), ou “Base científica-social dos estudos”; também deu-se início a uma variedade de projetos de investigação, por exemplo: “Condições estruturais da angústia social”, “Processos de aprendizagem informal nos estabelecimentos penitenciários” ou “A mulher no processo de produção.

Mas também se deixava claro que a pergunta sobre se era possível alcançar uma perspectiva emancipadora na psicologia e de que modo isso aconteceria, provocava divisão de opiniões entre duas posições: por um lado, os que pensavam que a crítica devia qualificar-se primeiramente — ou unicamente — como crítica da função social da psicologia em sua história e atualidade de ciência, a serviço do controle e adaptação das pessoas, e, por outro, dos que pensavam poder desenvolver uma psicologia marxista.

Como modo de diferenciação, passou-se a escrever o nome da primeira variante com k minúscula e da segunda com K maiúscula.

Assim havia (e há) uma “kritische Psychologie” e uma “Kritische Psychologie”. (Hoje também se fala, de um modo mais geral, de “critical psychology” para designar enfoques que abarcam desde a psicologia comunitária, passando por orientações psicanalíticas, psicológico-culturais e feministas até posições pós-estruturalistas).

Com seu livro Sinnliche Erkenntnis [Conhecimento sensorial], que foi publicado em 1973, Klaus Holzkamp mostrou que era possível o desenvolvimento positivo de uma Kritische Psychologie (com K maiúsculo). “Uma crítica adequada da Psicologia”, escrevia ali, “equivale a seu desenvolvimento ulterior como ciência”. O subtítulo deste livro, que traduzido para o português seria “Origem histórica e função social da percepção”, marca o procedimento a ser seguido e as metas quanto ao conhecimento, e não se trata somente da reconstrução da psicologia, senão da reconstrução histórica do psiquismo como tal (para o qual a percepção, além de ter um valor de exemplificação, é central). Em referência à Escola histórico-cultural da psicologia soviética, em especial a Alexei N. Leontiev, o proceder de Holzkamp significava a realização do método lógico-histórico de Marx no âmbito da história natural e social do psiquismo. Pois, embora o ser humano seja, ao mesmo tempo, um ser natural, social e individual, não se pode deixar claro, considerando as pessoas que estão em uma determinada sociedade, qual parte de suas expressões de vida são naturais, quais possuem uma forma determinada pela sociedade e quais são de origem biográfico-individual. De uma perspectiva emancipadora não se pode superestimar, nem teórica e nem praticamente, o significado da questão — por exemplo, no campo da educação — se os seres humanos são ou não são competitivos, antissociais ou xenófobos “por natureza”. Se alguém quer fazer algo para além de afirmações gratuitas, não somente tem que examinar a história social do psiquismo, mas também sua história natural. O biólogo Volker Schurig, membro do círculo de trabalho da Kritische Psychologie, abordou essa questão em suas obras Naturgeschichte des Psychischen[▼3] ([História natural do psiquismo] 1975) e Die Entstehung des Bewusstseins ([O surgimento da consciência] 1976).

Ali desenvolveu um conceito de “natureza humana” ou “natureza social do ser humano”, conceito que cumpre, antes de tudo, a função de rechaçar, tanto a naturalização das relações de vida (in-)humanas, como as naturalizações no contexto das abordagens psicologizantes dos problemas, naturalização que subjaz, por exemplo, na teoria da pulsão da psicanálise, como mostrara Ute Osterkamp nos dois volumes de Motivationsforschung ([Bases da investigação psicológica da motivação] 1975-1976, outra obra de importância no desenvolvimento Psicologia Crítica, na qual foi abordada também a concepção freudiana de “defesa”). Porém, o sentido psicológico-científico do enfoque histórico radica, sobretudo, na elaboração de conceitos psicológicos básicos (“categorias”) ou, respectivamente, na possibilidade de analisar o conteúdo cognoscitivo de conceitos já existentes. Este enfoque orienta-se segundo a ideia central de conceber aquilo que no desenvolvimento evolutivo é “filogeneticamente” mais anterior, como o mais geral, e o filogeneticamente mais tardio, como o mais específico e diferenciado.

Isto se pode ilustrar com um exemplo simples: a aprendizagem estímulo-resposta, entre outras coisas investigadas experimentalmente no condicionamento clássico, é um modo de adaptar-se ao entorno que, filogeneticamente, tem uma origem “anterior”; é um modo de aprendizagem que — como possibilidade — compartilhamos com muitas espécies. No entanto, a aprendizagem intermediada por significados surge muito mais tarde e é específica aos humanos. Um exemplo: se o flash da luz de freio de um carro fosse apenas um estímulo, no sentido do condicionamento clássico, a pessoa, ao aprender a dirigir um carro, teria que aprender sua função por meio de uma série de choques, mas, felizmente, é possível explicar verbalmente às pessoas o significado da luz de freio. Mas o fato de que as pessoas possam aprender no nível específico da “intermediação dos significados” não significa que não esteja à sua disposição a aprendizagem estímulo-resposta, filogeneticamente anterior, por exemplo, quando tem que passar por situações sem possuir informações claras sobre elas.

Um pescador solitário, por exemplo, que se encontra em águas novas para ele, só pode calcular o potencial de suas atividades baseando-se em tentativas e erros, à maneira de “trial and error”.

Seja como for, nos conceitos psicológicos, tem-se que expressar claramente que a aprendizagem estímulo-resposta, geneticamente anterior, é mais geral que a aprendizagem mediada por significados, geneticamente mais tardia, mais específica e essencial para a aprendizagem humana.

 

A influência intelectual que haviam alcançado Klaus Holzkamp e a Kritische Psychologie não somente se mostrava pelo fato de ter se tornado comum equiparar a psicologia da Freie Universität de Berlim com a Kritische Psychologie, mas também se tornou visível na repercussão do primeiro congresso de Kritische Psychologie na cidade alemã de Marburgo, com cerca de 3.000 participantes, no qual Klaus Holzkamp tematizou a relação da Psicologia Crítica com o “marxismo” da seguinte maneira: como o marxismo, que pelo modo em que estabelece “a relação entre a determinação objetiva por e a determinação subjetiva do processo histórico”, é “por excelência a ciência histórica do sujeito”, assim, a Psicologia Crítica, como uma “especial ciência do sujeito”, aponta para o “desenvolvimento do componente de caráter subjetivo-ativo, ou seja, da autodeterminação na atividade da vida individual”.

Em sua obra principal, Grundlegung der Psychologie, [Fundamentação da psicologia] publicada em 1983, Klaus Holzkamp conjugou as conquistas que tinha alcançado até o momento em seu círculo de trabalho, generalizando-as em um conceito: Psicologia Crítica como ciência marxista do sujeito, com a categoria central de capacidade de ação. O plano referencial teórico-social da Psicologia Crítica, no qual se analisam as relações de poder nas sociedades capitalistas, considera que, ao indivíduo, as possibilidades de ação jamais estão dadas sem falhas, mas se dão sempre em uma determinada relação — às limitações sociais de ação -, uma relação que corresponderá ao esclarecimento em cada caso concreto. Para o indivíduo, como formulou Holzkamp, existe uma “dupla possibilidade”: por um lado, enfrentando a situação de um modo “restritivo”, pode limitar-se a usar somente as possibilidades que lhe são concedidas, reproduzindo as formas de pensar sugeridas em sua situação imediata (comportando-se, por exemplo, de um modo competitivo); e, por outro lado, pode ele mesmo — dado o caso em união com outros indivíduos — ampliar ou transformar estas possibilidades em direção a uma “capacidade generalizada de ação”. O par conceitual capacidade generalizada de ação vs. Capacidade restritiva de ação significa, portanto, persistir em perguntar, do ponto de vista de cada qual: onde, como, por que, sob quais condições ou em que relações, em minhas tentativas de encarar minha vida, atento, ao mesmo tempo, contra meus próprios interesses de vida e dos demais? E, como isto se relaciona com o fato de que os indivíduos sejam excluídos do controle comum ou coletivo sobre suas condições sociais de vida? Aqui, interessa, sobretudo, a questão: por que pode ser subjetivamente funcional desistir da ampliação das possibilidades de ação e atuar de acordo com as circunstâncias limitativas? Basicamente, trata-se de esclarecer de que modo e por que os indivíduos não percebem as possibilidades de ação, de que riscos fogem, e em que medida os riscos que supõem defender-se, se parecem maiores do que as perspectivas que possam surgir com esse modo de agir, quais experiências levam a ver a coisa dessa maneira.

Que material ideológico é oferecido? Como se reprimem os próprios impulsos de rebeldia? Que ajuda ou que restrições apresentam a situação? Quais compromissos são feitos e à custa de quem? Que experiências conduziram à quais resignações? É melhor um pássaro na mão do que dois voando? De quais emoções me sinto prisioneiro, e qual penso que deveria controlar e de que maneira? Que emoções me são sugeridas como emoções inadequadas e que outras como adequadas? É um objetivo geral da investigação crítico-psicológica analisar em que medida as estratégias restritivas não somente prejudicam os demais, mas também são — inconscientemente — prejudiciais para si mesmo.

Esta pesquisa se entende como “pesquisa a partir do ponto de vista do sujeito”. Segundo esta, os indivíduos não são objetos da pesquisa psicológica, mas eles mesmos estão ao lado da pesquisa. O objeto da pesquisa é o mundo, tal como o sujeito o experimenta sentindo, pensando e atuando. Afirmações sujeito-científicas [▼4] não são afirmações que apontem para a classificação de indivíduos ou grupos humanos, mas sim, afirmações sobre suas possibilidades de ação. Uma pesquisa do ponto de vista do sujeito como esta, inclui a existência de uma relação mais simétrica e com maior igualdade de direito possível entre seus participantes.

Em Lernen — subjektwissenschaftliche Grundlegung ([Aprender — Fundamentação sujeito-científica] 1993), sua última monografia, Klaus Holzkamp tratou o “desenvolvimento de uma teoria de aprendizagem a partir do ponto de vista do sujeito, ou seja, sem mescla de conceitos com atividades de ensino estabelecidas externamente”. Ali, referindo-se, entre outros, a Vigiar e punir, de Michel Foucault, assim como ao enfoque de aprendizagem situada de Jean Lave — examinou também os problemas que estão unidos ao modo escolar que dá forma a uma aprendizagem pensada tão somente como efeito de instruções.

Sua referência a Foucault, disse Holzkamp em uma conferência dada em 1994, um ano antes de sua morte, incomodou “notavelmente a alguns leitores, em especial amigos políticos: como é que Holzkamp prontamente se refere positivamente a Foucault? — que é estruturalista, pós-estruturalista, pós-moderno ou algo parecido, sendo Holzkamp marxista -. Ou será que abandonou agora seu marxismo, seguindo o sinal dos tempos, e fez uso das correntes de moda usuais hoje?” Não; em seu livro sobre aprendizagem, Holzkamp fez referência a Foucault no sentido de que achou convincente sua análise da instituição “escola” (no livro Vigiar e Punir), usando-a para suas próprias análises. De um modo geral, pode-se dizer que na investigação crítico-psicológica é essencial a análise da instituição ou, de modo mais amplo, a análise das condições em que se encontram os indivíduos, porque suas vivências e vidas precisam ser entendidas em relação com o significado que estas condições têm para eles. Assim é que Holzkamp, depois de mostrar que Foucault lhe deu incentivos que, em sua opinião, eram irrenunciáveis para uma análise da instituição, resume: “Portanto, por favor, nada de renúncia ou sequer relativização de nossa orientação basicamente marxista” — uma pontuação frente à diversidade de enfoques não marxistas que hoje são chamados de “critical psychology” e que vão até aqueles construtivismos psicológicos, segundo os quais, não se poderia definir se Colombo chegou ou se imaginou um novo continente (o texto da conferência citada será incluído no tomo 3 desta edição, veja Sobre a seleção dos textos).

 

Pouco antes de sua morte, em 1995, Holzkamp fez uma tentativa de uma nova fundamentação de seu enfoque, desde a perspectiva do conceito da “condução de vida”,[▼5] uma tentativa que não pôde levar a cabo devido a seus crescentes problemas de saúde. Com a “condução de vida”, ele desenvolveu um conceito (originalmente proveniente de Max Weber) com o qual, na sociologia alemã do começo dos anos 1990, buscava-se considerar o fato de que, nas relações capitalistas pós-fordistas, os indivíduos tinham que unir ativamente os distintos âmbitos da vida em um todo coerente, um pensamento que pouco pode conduzir a uma nova fundamentação da Psicologia Crítica, mas tematiza um aspecto parcial dos problemas relacionados ao conceito de capacidade de ação. Quais teriam sido os resultados de seus esforços, é algo que, sobre a base de seus fragmentos (que eu mesmo, logo após sua morte, encontrei em seu computador), dificilmente se pode estimar.

Os debates que se mantém na e sobre a Psicologia Crítica podem ser observados, sobretudo na revista Forum Kritische Psychologie, que Holzkamp e seu círculo fundaram em 1978, e que aparecendo semestralmente — está pelo número 59. Para os países de língua alemã, graças a uma edição completa de seus escritos em Argument-Verlag, foi melhorado (novamente) o acesso à obra de Holzkamp. Ao mesmo tempo, em 2013, publicou-se Psychology from the Standpoint of the Subject, [Psicologia do Ponto de Vista do Sujeito] a tradução inglesa de uma seleção de seus textos. Dentro da International Academy for Innovative Pedagogy, Psychology and Economics (pertencente à faculdade de ciências pedagógicas e psicológicas da Freie Universität Berlin), foi fundado, em 2012, o Instituto Klaus Holzkamp para a ciência do sujeito. Este instituto se soma — ao nível universitário e internacional — ao trabalho da Sociedade para a pesquisa e a práxis sujeito-científica, brindando uma plataforma para a discussão e desenvolvimento psicológico-crítico.

Klaus Holzkamp era um teórico notável, mas não era alguém que temia a prática. Assim como em seus anos pré-críticos havia sido experimentador, posteriormente participou de projetos empíricos fora dos laboratórios. Em 1969, tornou possível a fundação do projeto Schülerladen “Rote Freiheit”, [Estabelecimento escolar “Liberdade Vermelha”] dirigido por estudantes universitários, cujo objetivo era possibilitar que crianças e jovens de um bairro popular “problemático” da Berlim Ocidental dessem conta de sua situação e encontrassem novas possibilidades de ação. Sobretudo o fato de estas crianças e jovens tematizarem de um modo direto sua opressão sexual, foi algo que, na oficialidade da cidade de Berlim daquela época (e na da Alemanha Ocidental), ainda muito puritanas, transformou-se em um escândalo. As campanhas difamatórias, por meio das quais buscavam envolver a Klaus Holzkamp em um escândalo sexual, foram investigadas e analisadas por Wolfgang Fritz Haug .[▼6]

Em 1978, Klaus Holzkamp iniciou o projeto Subjektentwicklung in der frühen Kindheit [O desenvolvimento do sujeito na primeira infância], que duraria cinco anos e sobre a base de cujos resultados Gisela Ulmann escreveria sua obra Über den Umgang mit Kindern ([Sobre a relação com as crianças] 1987). De modo paralelo e antecipadamente, nos trabalhos do Projekt Automation und Qualifikation [Projeto Automatização e Qualificação], sem a participação de Holzkamp, mas fazendo também referência à Psicologia Crítica, se investigava o significado que, para os trabalhadores, teria a transição ao modo de produção de alta tecnologia. A investigação da prática (Theorie-Praxis-Konferenzen), que Klaus Holzkamp impulsionara nos anos 80, serviu de base para um projeto de formação sobre “investigação qualitativa e prática profissional sujeito-científica” na Freie Universität que se desenvolveu até 2013, ano em que foi suprimida da carreira de psicologia por não se encaixar nos “novos planos de estudos” (introduzidos a partir de “reformas” de corte neoliberal). Dentro do círculo de trabalho da Psicologia Crítica dinamarquesa, Ole Dreier orientou o enfoque da investigação da prática em direção a uma ação terapêutica consciente da variedade de referências e vínculos da prática, tanto dos psicólogos, como dos clientes (trajectories, 2008). Na metade dos anos 80, Klaus Holzkamp iniciou um projeto escolar, mas logo voltou a abandoná-lo para trabalhar em outro projeto de investigação sobre racismo (junto à sua companheira, Ute Osterkamp), no qual foram analisados os esquemas justificativos, mediante os quais, as limitações e contradições sociais eram articuladas em forma de acusações pessoais que, desse modo, obstaculizavam a solidariedade.

A variedade de suas atividades mostra seu interesse pela investigação prática, mas também certa dúvida para levar verdadeiramente seus projetos até o final. Nesses momentos, sempre teria alguma outra coisa a fazer, algo que (para ele) era mais importante. E sua principal ocupação — que também era reforçada pelo círculo de trabalho — era o desenvolvimento da teoria.

 

A atitude científica de Holzkamp manifesta-se em sua definição geral e enfática de ciência: a ciência como “nadar contra a corrente, sobretudo contra a corrente dos próprios preconceitos e também, na sociedade burguesa, contra a própria tendência a deixar-se corromper e a ceder frente às forças dominantes, forças que se atormentam com os conhecimentos que poderiam colocar em perigo o exercício dos poderes que reclamam para si. Segundo isso, a ciência é, como tal, crítica e autocrítica; mas não a crítica determinada pela competência, destinada a se destacar de muitos intelectuais burgueses, mas a crítica que busca instaurar o progresso do conhecimento humano pelo interesse de todos, contra os interesses daqueles que exercem a dominância intolerante, contra os interesses na perpetuação da heteronomia e a privação ou limitação dos direitos humanos” (1983d, p. 163).

Esta compreensão levou ao que Klaus Holzkamp considerara, a crítica, como uma espécie de tarefa permanente, uma tarefa que se apresenta, precisamente, quando não se quer renunciar a si mesmo ou ao entendimento e à ação e, justamente, quando se defronta com estas intenções de entender e atuar, uma ou outra vez com barreiras. A este respeito, Holzkamp ressalta dois momentos: a disposição à mudança e autocrítica, e uma resistência frente àquela flexibilidade que corresponde à “competência chave” ou básica da adaptação e agilidade burguesas.

Era, sem dúvidas, um cientista militante, mas não buscava controvérsias sem razões — porque ele, que trabalhava incansável e apaixonadamente, entregava-se com tanto ou mais gosto à sua segunda paixão, a música -, como pianista clássico e logo também de jazz. Mas, em todo caso, não via alternativa a seu compromisso político, porque não queria evitar as consequências políticas de suas descobertas científicas. Perseguia os questionamentos que pareciam importantes, independentemente de modas teóricas, sem deixar-se pressionar pelos ordenamentos cronológicos planejados em um começo, uma atitude que não se ajustava muito bem a planejamentos administrativos de pesquisa.

Em todas estas questões, ele era um pesquisador ao velho estilo. Faltavam-lhe as “qualidades comerciais” (por exemplo, para conseguir um financiamento de algum programa de fomento) que Adorno já havia criticado e que, entretanto, é algo que hoje se espera oficialmente: as habilidades daquele cientista que se torna “indispensável”, por meio do “conhecimento de todos os canais e disseminadores do poder”, adivinhando suas “sentenças mais secretas” e vivendo de sua “ágil comunicação” (Adorno, 1951), enfim, algo que não possuía. Trabalhava sozinho, precisava de tranquilidade e refúgio e depois discutia os problemas, hipóteses e resultados em distintos contextos de trabalho e nas conferências que dava na universidade, porque não considerava os estudantes como objetos de um sistema educativo canonizado e de provas, mas sim como companheiros e companheiras em um pensamento não conformista que focava o futuro considerando-os sujeitos.

Assim, era também consciente de que uma hierarquia heterônoma era contrária a uma comunidade de ensino e aprendizagem e à sua correspondente cultura de discussão, debate e entendimento.

Não é somente a Psicologia Crítica que, em suas ideias conceituais e metodológicas, encontra-se em uma tensa relação com a psicologia hegemónica; também a atitude científica de seu fundador, Klaus Holzkamp, era uma crítica vívida da sociedade capitalista e seu sistema científico.

 

Sobre a seleção dos textos

A recopilação se inicia com cinco textos que permitirão aos leitores e leitoras familiarizarem-se com as bases do pensamento psicológico-crítico de Klaus Holzkamp. O primeiro texto, intitulado “Os indivíduos não estão encerrados no capitalismo como se estivessem em uma jaula”, é uma entrevista concedida a uma revista alemã de psicologia com caráter de divulgação, na qual Klaus Holzkamp explica, basicamente, as razões pelas quais as pessoas não estão, absolutamente, determinadas pelas relações sem que possam intervir nelas, transformando-as. Com “Os conceitos básicos da Psicologia Crítica” são referidas, por assim dizer, às bases conceituais para compreender esta questão, discutindo sobre as categorias como capacidade de ação, cognição, emoção e motivação. O ensaio “O processo social e individual da vida” aborda a relação entre economia, sociologia e psicologia, tal como se deve conceber do ponto de vista da Psicologia Crítica: trata-se de esclarecer a relação entre reprodução individual e reprodução social. O conceito de “existência individual mediada pela sociedade em seu conjunto” refere-se ao fato de que as estruturas sociais se voltam autónomas à prática vital individual e coletiva. Seja de maneira individual ou coletivamente, os indivíduos se posicionam e se conduzem em relação à estas estruturas autonomizadas e tem que fazê-lo de maneira forçada. A Psicologia Crítica busca analisar como o fazem. A interconexão entre a determinação pelas relações sociais, por uma parte, e a determinação subjetiva como intervenção transformadora dessas relações, por outra, é uma relação mediada pelo poder e se mostra em uma variedade de formas que vão desde a adaptação e a submissão até à resistência. Mediante o par conceitual “capacidade restritiva de ação” vs. “capacidade generalizada de ação” será elucidado, dentro dessa relação: que razões, com que funcionalidade subjetiva e de que maneira os indivíduos se movem entre essas duas alternativas.

Este problema é tratado, precisamente, no texto “A que se refere o par conceitual “capacidade restritiva de ação” vs.capacidade generalizada de ação”?”, onde ele nos explica que essa alternativa conceitual não pode ser compreendida em um sentido normativo, senão, pelo contrário, deve servir de ferramenta aos indivíduos que planejam elucidar suas próprias situações e contradições. O texto “Psicologia Crítica e Psicologia Fenomenológica” é um texto chave em que Klaus Holzkamp, depois de terminar sua obra principal, a citada “Grundlegung der Psychologie”, reconstrói a via por onde chegou à especificidade sujeito-científica do enfoque marxista da Psicologia Crítica. Explica o desenvolvimento mediante o qual (entre outras coisas, tratando e elaborando criticamente a psicanálise) se puderam superar as próprias ideias deterministas anteriores: por mais que se fale da socialidade da existência individual, sempre se deve levar em conta o sentido próprio que caracteriza a experiência subjetiva. De maneira que este texto — que, por certo não é de fácil leitura — retoma aspectos dos demais textos da primeira parte (que podem ser entendidos como textos preparatórios), enquanto nos conduz à segunda parte, cujo tema é a relação entre a Psicologia Crítica e Psicanálise.

Como já mencionado, por um lado, Klaus Holzkamp e a Psicologia Crítica rechaçam a teoria das pulsões de Freud por ser biologicista e, por outro lado, sua teoria da defesa se incorporou de maneira modificada (“reinterpretativa”) na concepção das fundamentações ou razões restritivas das ações. O texto “A relevância da psicanálise de Freud para a psicologia de fundamentação marxista”, redigido sobre a base de uma conferência na Universität Leipzig (Alemanha Democrática), elucida esta relação diferenciada com respeito à psicanálise, mas ao mesmo tempo, esse rechaço recebe um giro dialético no momento em que Holzkamp escreve: “Justamente na […] antropologização biologicista dos antagonismos entre as exigências pulsionais e a socialidade se manifesta toda a importância de Freud como um cientista burguês de grandeza incorruptível” (conferir o tomo 2 desta edição). Mas, diferentemente de Freud, a Psicologia Crítica não faz referência aos problemas psicológicos, que existem sob estas relações sociais, à incompatibilidade da natureza humana com a sociedade, mas esclarece suas mediações com as contradições da mesma sociedade.

Em “A posição que ocupa a psicanálise na história da psicologia”, Klaus Holzkamp traz, sistematicamente, e do ponto de vista histórico, o desenvolvimento da psicanálise, também posterior a Freud. Analisa posições que variam, entre os extremos do cientificismo nomotético e de uma hermenêutica analítica linguística e, tanto em uma linha quanto em outra, reconhece-se corroída a radicalidade — por demais mitificada — da crítica de Freud à dominação. O texto “O racismo e o inconsciente segundo a concepção psicanalítica e psicológica-crítica”, surgido na fase em que Holzkamp colaborava com o projeto sobre racismo já mencionado, ocupa-se de conceitos psicanalíticos que trasladam para a infância (para a timidez e temor infantil frente ao estranho e aos estranhos) as causas dos conflitos que (entre outras coisas) se manifestam no racismo. Nestes contextos, as contradições da sociedade só podem aparecer como uma espécie de marco para os conflitos infantis e não são e nem podem transformar-se em objeto de transformação.

O dilema teórico da psicanálise tem suas raízes, precisamente, na afirmação de natureza associal e antissocial das pulsões: nessa condição, a insistência em mostrar que as reivindicações de felicidade e satisfação vital estão condenadas ao fracasso, significa, ao mesmo tempo, a impossibilidade de superar a opressão, que é essencial para dominar as pulsões. No texto “A colonização da infância” analisa-se sistematicamente a hipótese “pré-teórica” da determinação da personalidade adulta pela infância, implícita em diferentes enfoques e se mostra de que maneira esta forma de pensar desatende os vínculos autónomos das crianças com seus modos de vida.

Aqui se mostra mais uma vez, a inteligente seleção dos textos por parte do editor, pois a temática de A colonização da infância é ponte para a terceira parte dedicada ao desenvolvimento (infantil), a educação e a aprendizagem. Com os textos We don”t need no education…” e “Que podemos aprender de Marx sobre a educação?”, a Psicologia Crítica interveio em forte debate sobre os objetivos e métodos de educação “de esquerda” que existiam na Alemanha na década de 1980. Baseando-se nas discussões e experiências do mencionado projeto sobre O desenvolvimento do sujeito na primeira infância, Holzkamp problematiza, de um modo fundamental, a forma educativa na qual “educar” significa dar forma “à vontade” ao “educando”. Onde as crianças são tratadas como objeto da educação, suas subjetividades são negadas. Porém, em uma vida solidária junto às crianças, trata-se de analisar as relações contraditórias que adultos e crianças tem em comum para melhorá-las tanto quanto seja possível e, neste contexto, refletir sobre o que é isso que se manifesta como “problema educativo”. Nos textos seguintes, que abordam o complexo da “aprendizagem”, pode-se compreender, sob diferentes aspectos, de modo visível nos seus títulos, o desenvolvimento e a formação da teoria de Holzkamp sobre aprendizagem que, em 1993, culminou em sua monografia Aprender: Fundamentação sujeito-científica.

Aqui se integraram os resultados das discussões e experiências, no mencionado projeto sobre a aprendizagem. Com um elo que de maneira mais ou menos elaborada — atravessa todos os textos, reconhece-se o pensamento básico da diferenciação analítica entre a aprendizagem fundamentada de maneira “expansiva” e a aprendizagem fundamentada de maneira “defensiva”, uma diferenciação que vem representar a alternativa da capacidade generalizada de ação por um lado e a capacidade restritiva de ação por outro, com referência à aprendizagem. A aprendizagem expansiva se fundamenta na possibilidade (prevista) de ampliar a própria capacidade de controle por meio da elucidação do objeto de aprendizagem. Mas, na aprendizagem fundamentada de modo defensivo, a ação de aprendizagem somente tem sentido enquanto serve à defesa contra ameaças, mas, parece inútil e se realiza somente de maneira mais ou menos forçada. O texto “Aprender — Fundamentação sujeito-científica: Introdução aos objetivos principais do livro” se baseia em uma conferencia na qual Klaus Holzkamp aborda a recepção que teve sua monografia e esboça de maneira concisa as principais passagens de seu livro. Da mesma forma, na questão educativa, Holzkamp também situa o sujeito no centro de todos os trabalhos sobre a aprendizagem, mais exatamente: a relação subjetiva dos que aprendem com o objeto de aprendizagem e com as condições sob as quais se deve aprender, se pode aprender e se aprende. Em Aprendizagem e resistência à aprendizagem são analisadas as circunstâncias sob as quais os sujeitos percebem as exigências e as propostas de aprendizagem como uma pressão, não esperam que durante a aprendizagem, ou à raiz da mesma, se ampliem suas possibilidades vitais de ação e, portanto, sabotam, infringem ou ignoram as exigências e propostas. O ensino pode transformar-se em um impedimento e dificuldade de aprendizagem, na mesma medida em que os “ensinantes” não prestam atenção na situação subjetiva daqueles que devem aprender. O texto “A ficção de uma aprendizagem administrativamente planejada” aborda o fato de que a escola estabelece, de modo administrativo, os objetivos de ensino (com uma determinada ordem consecutiva e temporal) que, mais adiante, devem ser realizados obedecendo a planos estipulados.

Segundo Holzkamp isto é uma “ficção”, porque se atua tal como se o que se pretende ensinar fosse logo também aprendido sem apresentar maior dificuldade. Mas, desta maneira, pensa-se e age-se passando novamente por cima daqueles que serão afetados por um plano administrativo. O problema central é O curto-circuito ensino = aprendizagem, contra o qual desenvolve seus argumentos no último texto. A suposição contrária ao fato de que o que se ensina é realmente o que também se aprende, é uma ideia muito difundida que se expressa, de modo sistemático, dentro dos textos administrativos escolares, onde, por exemplo, falam do que os “alunos aprenderão…” quando, na realidade, somente se referem ao que será ensinado.

Espera-se que, para leitores e leitoras, os textos reunidos neste volume representem um material efetivamente útil e que possam desfrutá-lo, também experimentando a alegria de enfrentar com êxito um material que nem sempre é facilmente acessível.

Por último, quero agradecer ao editor Santiago Vollmer, por seu trabalho de tradução árdua e cuidadosa, cujas dificuldades penso poder julgar, pois, frequentemente, tomei parte das discussões em torno dos problemas de tradução e suas soluções. É mérito seu, difícil de estimar, que hoje os textos reunidos neste livro sejam acessíveis para leitores e leitoras de língua espanhola e, agora também graças ao trabalho de Raquel Guzzo e seu grupo de pesquisa, em português.

 

Morus Markard, Berlim, 10 de novembro de 2015.


Notas

1 Morus Markard, Prólogo a Klaus Holzkamp, Ciência marxista do sujeito: uma introdução à psiciologia crítica. Ed. – Maceió : Coletivo Veredas, 2016


2 Morus Markard — professor de psicologia da Freie Universität Berlin, se doutorou e titulou como catedrático com Klaus Holzkamp, a quem se uniu em um extenso trabalho em comum. Foi um dos fundadores da revista Forum Kritische Psychologie e figura central nos distintos projetos psicológico-críticos (sobretudo em torno à “investigação da práxis”). Entre outras coisas, desenvolveu uma crítica e reinterpretação dos conceitos de psicologia social (a este respeito, cfr. Markard, 1984, livro frequentemente citado por Holzkamp), assim como o enfoque metodológico da Psicologia Crítica (cfr. Markard, 1985, no tomo 3 desta edição).Em 2009, publicou seu livro Einführung in die Kritische Psychologie (Introdução à Psicologia Crítica) que, em pouco tempo (em 2014), alcançou sua quinta edição, com um reflorescimento dos grupos autônomos de leitura e estudo de Psicologia Crítica dentro das universidades alemãs.


3 História natural do psiquismo. Obra em dois volumes: 1 — Psychogenese und elementare Formen der Tierkommunikation (Psicogênese e formas elementares da comunicação animal) e 2 — Lernen und Abstraktionsleistungen bei Tieren (A aprendizagem e as faculdades abstrativas nos animais).


4 sujeito-científico. No alemão, subjektwissenschaftlich. Adj. Referido à “ciência do sujeito” (Subjetkwissenschaft), formalmente análogo a adjetivos como, por exemplo, “científico-natural”, “histórico-cultural”,etc. Posto que a ciência do sujeito para Holzkamp não trata a subjetividade como uma entidade separada e nem oposta ao mundo social-objetal, não podemos introduzir a palavra “subjetivo” e falar, por exemplo, de um enfoque “científico-subjetivo” (além disso, esta seria a tradução de um termo distinto, subjektivwissenschaftlich, que não faria referência à ciência do sujeito, mas a uma “ciência subjetiva”).

5 Veja a esse respeito os textos de Klaus Holzkamp Älltägliche Lebensführung als Subjektwissenschaftliches Grundkonzept (A conduta cotidiana de vida como conceito sujeito-científico), publicado em 1995 no número 212 da revista Das Argument (págs. 817-846) e Psychologie: Verständigung über Handlungsbegründungen alltäglicher Lebensführung (Psicologia: entendimento mútuo sobre as razões das ações no marco da condução cotidiana de vida), publicado em 1996, no número 36 da revista Forum Kritische Psychologie (págs. 7-110).

6 Wolfgang Fritz Haug, Der sexuell-politische Skandal als Instrument antidemokratischer Kampagnen (O escândalo político-sexual como instrumento de campanhas antidemocráticas); publicado em 1971 em: Autorenkollektiv Schülerladen Rote Freiheit (Frankfurt am Main), págs. 389-464..

 

Bibliografía

Adorno, Theodor W. (1951), Minima Moralia: Reflexionen aus dem beschädigten Leben, Suhrkamp, Fráncfort del Meno.
Baritz, Loren (1960), The servants of power: A history of the use of social science in american industry, Middletown, Whitefish.
Dreier, Ole (2008), Psychotherapy in everyday life, Cambridge Univ. Press, Cambridge.
Foucault, Michel (1975), Surveiller et punir: Naissance de la prison, Gallimard, París.
Foucault, Michel (1976), Vigilar y castigar: nacimiento de la prisión, Siglo XXI, Buenos Aires.
 


Equipe de tradução e edição em português

Raquel Souza Lobo Guzzo: Professora Titular e membro do Grupo de Pesquisa ‘Avaliação e Intervenção Psicossocial: Prevenção, Comunidade e Libertação’ do Programa de Psicologia na Pontifícia Universidade Católica de Campinas, Brasil. Eduardo Alessandro Kawamura: Pedagogo, Mestre em Psicologia pela Pontifícia Universidade Católica de Campinas, Brasil. Jacqueline Meireles: Psicóloga, Mestre em Psicologia pela Pontifícia Universidade Católica de Campinas, Brasil. Lucian Borges: Psicólogo pela Pontifícia Universidade Católica de Campinas, Brasil.